Yelena

Foi a música que a trouxe para Lisboa. Mas por mais incrível que pareça, não foi o fado, nem nada que ela própria toque. É pela Bossa Nova que aqui está, a sua grande paixão.

Não se cansa de ouvir jazz, em especial o estilo imortalizado por Tom Jobim e Elis Regina. Tanto, que quis ir morar para o Brasil. A caminho, decidiu parar em Portugal para aprender a língua. Isso foi há mais ou menos três anos. Entretanto, o cúpido trocou-lhe as voltas e por isso, decidiu ficar. Arranjou um emprego, um grande amor em Sesimbra e agora as terras de Vera Cruz estão um pouco mais longe.

É natural das Caraíbas, mais precisamente de Trindade e Tobago. Um país onde o povo adora contar anedotas. Talvez isso explique o seu modo tão alegre e o facto de soltar o sorriso de forma tão simples e bonita. Aproveito a deixa para lhe perguntar o que a faz feliz. “Pergunta difícil”, diz depois de uma gargalhada. “Não sei… Memórias… Pessoas… Dizem que um sorriso é como um karma instantâneo. Assim que sorris, as outras pessoas começam a sorrir. É algo contagioso”, partilha de forma inteligente, por entre vários sorrisos.

Adora Portugal, de norte a sul. “É tão estranho, Portugal é um país tão pequeno, quando comparado com o resto da Europa, mas tem uma paisagem tão variada”. Adora o Porto, a Serra da Estrela e a sua neve, a aldeia presépio do Piodão com as suas cascatas e um verde a perder de vista. Gosta também do Alentejo, de Marvão e de Monsanto onde tudo é feito de granito. “Ainda estou a descobrir este país. Não consigo decidir qual o sítio que gosto mais, mas vejo-me a ficar por aqui e a explorar esta diversidade”, confessa. A sua praia favorita? A Comporta!

De Lisboa distingue duas coisas: o seu carácter histórico e o facto de estar plantada à beira da água, perto do rio e do mar. “Adoro a ideia de uma cidade estar à beira mar. Há um elemento de frescura que me apaixona bastante”. Acrescenta ainda um terceiro factor: as pessoas. “São verdadeiramente simpáticas e amistosas. Algo que é comum no resto do país. As pessoas fazem a cidade”.

Deixando um pouco Portugal de lado, peço-lhe para se sentar na cadeira de dona do mundo por uma semana. O que faria? “Essa é uma daquelas pergunta-tipo para a ‘Miss Universo’”, graceja de forma perspicaz. Desta vez sou eu quem solta uma gargalhada. “Acho que devo dizer: ‘World Peace’!”, diz na brincadeira. Depois da descompressão, pensa a sério na questão e conclui que nada mais lhe importaria do que acabar com a fome no mundo. Pode ser uma resposta cliché, mas também sabe que iria ser uma tarefa imensa. Seria decididamente nisso que iria gastar todas as forças nessa magnânima semana. “É injusta a forma como o mundo está atualmente. Nós vivemos de forma confortável, enquanto milhares de pessoas morrem à fome. É uma realidade muito triste quando pensas nela”. Não saberia por onde começar, mas estaria disposta a fazer tudo ao seu alcance para mudar este panorama.

Pensando em algo mais pequeno para o seu mandato, gostava de mudar algo que considera fundamental, relativa ao nosso modo de vida: “nós vivemos para trabalhar… demasiado. Se pudesse pensar num sistema, onde o equilíbrio trabalho/casa fosse melhor, certamente gastaria o meu tempo nisso. As pessoas precisam de disfrutar mais da vida”, conclui. Terminamos esta conversa invertendo os papéis. “Baseado nas perguntas que me fizeste e nas respostas que te dei, qual achas que é a minha profissão”, pergunta. Eu arrisco o papel de relações públicas numa multinacional a operar em Portugal. Yelena ri e responde “quase…”. É advogada. “Ninguém iria descobrir, pois a advocacia é vista como uma coisa séria”, diz com o tal sorriso contagiante. Estudou direito e não se arrepende. A antropologia que pensou seguir não lhe iria conseguir dar o sustento que almejava. “Mas adorava fazer algo que gostasse e ganhar dinheiro ao mesmo tempo”. Quem não gostaria, acrescentamos nós?