Susana

“Sou apaixonada por histórias de vida”. Assim começa esta conversa sobre Lisboa e sobre aquilo que lhe importa na vida. “Sensibilidade, amor e respeito ao próximo e à natureza” são as substâncias que lhe iluminam o caminho e o sorriso. Pronto para esta viagem?

Aterramos na cidade que a trouxe ao mundo. Lisboa é especial para si e uma das razões que a leva a sentir isso é a relação que a cidade tem com o Tejo. “Há vários pontos na cidade onde consegues ter acesso ao rio, sem estares em cima do rio”, partilha. Depois, há a proximidade com o mar, o magnifico clima e a luz que conjura tudo isto. “Eu sou muito dependente do sol… e da luz. Já tentei ir morar para Londres mas, quando lá cheguei, percebi que não queria lá ficar”, confessa. Sentia falta do brilho e do calor que emanam das pedras da calçada desta cidade tão única.

Lisboa é também uma terra acolhedora. Pelo menos, é aquilo que sente. É uma cidade “pequenina” e, por isso, fácil de abraçar. Os Lisboetas partilham do carácter de acolhimento da sua cidade. “Gostamos de ajudar de alguma forma”, diz com a autoridade de quem aqui nasceu. “Eu sou muito daquelas pessoas que, quando não sabe alguma coisa, pergunta e pede informações. As pessoas, normalmente, são muito disponíveis para responder e para explicar e, às vezes, até de ir aos sítios connosco”, diz com ligeireza.

Os lugares de Lisboa são igualmente peças fundamentais do puzzle de emoções que a fazem gostar de viver aqui. O Chiado é uma das zonas com que mais se identifica, local pegado ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, o seu sítio preferido para olhar Lisboa. “Especialmente no pôr-do-sol e se chegar vinda de cima da Rua da Escola Politécnica. É lindo!”, partilha com a mansidão de quem fecha os olhos e se imagina a contemplar aquela vista singular para o castelo de São Jorge e a parte baixa da cidade. Outro dos locais onde a podemos encontrar frequentemente é o Jardim Amália Rodrigues, no topo do parque Eduardo VII. É um daqueles locais que não vêm nos guias e que gosta de reclamar só para si. O local perfeito para deambular e para sossegar após um dia mais agitado no trabalho.

Com uma ligação tão forte à cidade, é fácil e, ao mesmo tempo, difícil encontrar algo que lhe desagrade. No entanto, sente que o “excesso de tráfego, poluição e pessoas” está a roubar bastante do encanto que Lisboa tinha há uns tempos atrás. “Nos últimos três anos, houve um crescimento enorme de estrangeiros, de pessoas que vêm visitar a cidade, algo que achei engraçado ao princípio, mas que agora considero ser demais. Há alturas em que vou na rua e não consigo ouvir a língua portuguesa”, desabafa com inteligência. Gosta imenso da cidade, mas sente que este excesso de gente e automóveis a está a asfixiar aos poucos. A ela e à sua cidade.

Deixamos Lisboa para viajar um pouco pelo mar das suas memórias. “Susana, lembras-te do que querias ser quando eras pequenina”, pergunto. Quando era miúda “queria ser ginasta, pois delirava com os treinos dos miúdos da ginástica desportiva de competição e com os saltos e flique-flaques que eles faziam”. Os seus pais inscreveram-na no judo, juntamente com o irmão, mas como era tudo gente mais forte e mais alta, fugia para assistir aos treinos da ginástica desportiva. E depois, “eles voavam”…

À parte desta paixão precoce pela ginástica, sente ” que nunca teve muito definido aquilo que gostava de ser. Até hoje”, confessa no meio de um sorriso. Sente que gostava de ter perseguido uma actividade que lhe desse mais liberdade e que fosse mais versátil, no sentido em que gostava de não estar sempre a fazer a mesma coisa todos os dias. Descobriu isto depois de ter estado cerca de 10 anos ligada à educação e às crianças. Embora reconheça que é um mundo apaixonante, onde aprendeu muito, foi fundamental para lhe mostrar que ficar ‘fechada’ numa escola, dia após dia, não era aquilo que a ia fazer feliz. Precisava de algo com uma componente mais criativa, mais artística.

A fotografia, uma das paixões em que coloca mais de si, pode ser a solução. Mas há outras. Vai “fazendo formação, ‘picando’ coisas aqui e ali, experimentando diferentes realidades em diversas áreas”, sempre à procura do seu caminho. Neste momento, estuda macrobiótica, pois a saúde e a alimentação são áreas que lhe interessam muito.

Mas é na fotografia que se sente preenchida.”Para mim, fotografar é viver o momento”, partilha. Quando está a fotografar, é como se fundisse com o meio ambiente. Nada mais importa e o tempo apenas conta como forma de aprisionar o que vê. E o que sente. Esta relação com a fotografia só tem igual naqueles momentos de cumplicidade com as pessoas que ama. Como qualquer actividade que enalteça a criação de algo que só existe se o criador estiver presente, a viver o momento, a fotografia permite-lhe ver-se a si própria de maneira mais pura e luminosa. Aquilo que cria, é aquilo que sente e isto, não tem igual. É como se a alma se pudesse finalmente materializar.

Por falar em alma, peço-lhe que partilhe comigo um dos momentos mais especiais da sua vida. Lembra-se com saudade de um certo nascer do sol, no meio do deserto. “Esse foi o momento mais especial para mim. Ainda não assisti ao nascimento de ninguém, mas este momento isolado foi, sem dúvida, o mais especial, até agora”, diz de forma contagiante. Tudo isto se passou na Duna de Erg Chebbi, em Merzouga, Marrocos. E como não podia deixar de ser, existem fotografias a fazer perdurar a memória.

Um dos superpoderes que mais gostava de ter, teria sido certamente útil nesta viagem pelo deserto. “Era fantástico termos todos a possibilidade de voar!”, diz enquanto se imagina com a capa de super-herói. “Habituávamo-nos a ver o mundo sobre outra perspectiva, a liberdade era muito maior, além de ser óptimo para o ambiente. E (re)criávamos os polícias-sinaleiros, voadores, é claro!”, diz entre sorrisos.

Mas também gostava de ter o poder de juntar as pessoas e de as fazer entender-se de forma mais clara. Acha que grande parte dos problemas do mundo estão na falta de comunicação e no facto de as pessoas se oporem tantas vezes de forma desnecessária e de passarem muito tempo a contemplar o seu próprio umbigo. “O segredo está em conseguimos ouvir os outros, de forma realmente efectiva e afectiva e termos a coragem de perdermos os medos”. Isto seria, verdadeiramente, um mega-poder…

Acabamos sentados numa sala de cinema, assistindo ao filme onde é candidata ao óscar de melhor actriz. Numa das cenas, um fotógrafo conversa consigo num dos seus locais preferidos de Lisboa, o sol adorna-lhe o rosto e o vento deambula livremente por entre os fios finos do seu cabelo. “A Doçura de Viver” é o título deste filme que tem uma banda sonora fabulosa, onde pontificam nomes como Yuruma, Sinead O’Connor, The National, Ottis Redding e Goodbye Ivan, temperado aqui e ali pelo som ondulante do piano. No final, há um tango onde dança com o Grand Canyon em pano de fundo, enquanto as crianças fotografam para a posteridade. A risada de Axel Foley acompanha o título “FIM”.