Oriol

Deixou Barcelona para vir aprender a regenerar corações em Lisboa. Mas corações dos verdadeiros, daqueles com músculos, tecidos e artérias.

Aos 17 anos, acordou com o sonho de ser biólogo. Estudou biologia e agora está a fazer o seu doutoramento em biomedicina. Anda às voltas com uma proteína que pode ajudar a restaurar o funcionamento do coração, depois de um acidente cardio-vascular, tal como um enfarte. Coisas sérias, portanto, mas, ao mesmo tempo, apaixonantes. O seu futuro próximo passa certamente pela investigação, agora no sector público, mas mais tarde não descarta uma experiência diferente. “Há gente que, quando acaba, quer ir para o sector privado ou experimentar outro tipo de trabalho. Gente que começa no mundo académico mas que depois se desencanta”, partilha.

E Lisboa, o que pensa Oriol da menina das sete colinas? “Caos!”, diz com um sorriso. “Eu sou uma pessoa que tem um bom sentido de orientação, mas Lisboa foi das cidades onde, no início, mais dificuldade tive em encontrar os caminhos”. Sente falta da ‘sua’ Diagonal, lembro-lhe eu. “Acho que tem um mapa realmente intricado”, resume.

À parte do carácter labiríntico das ruas, há algo que o encanta em Lisboa. “Gosto bastante do tema dos miradouros. Há miradouros em qualquer parte, sendo que uns são mais ‘fixes’ que outros. É bom irmos descobrindo novos miradouros, à medida que descobres a cidade. Vais caminhando pelas ruas e de repente, cá está mais um”. É esta constante descoberta que o apaixona. Dos lisboetas fala da diferença – que também está a descobrir – entre espanhóis e portugueses. Considera-nos mais formais que os habitantes do seu país, que às vezes até são informais em demasia. Acha muito bonita esta característica e considera os habitantes de Lisboa bastante simpáticos. As pessoas que vai conhecendo demonstram de forma genuína a sua simpatia, mas sempre com uma boa dose de reserva.

Lisboa é também responsável pela última coisa que fez de realmente novo: os Santos Populares e as sardinhas! “Raramente tinha comido sardinhas e numa semana comi mais do que alguma vez esperei comer em toda a minha vida”, confessa. Gostou imenso da experiência, embora diga que houveram umas melhores que outras. “Depende do sítio”, acrescenta. Da festa, preferiu os dias que precederam a noite de Santo António. “Estava tudo caótico, uma confusão de gente. Mas por exemplo no dia 9, antes do feriado, gostei imenso”.

Oriol é uma pessoa calma e serena. Isso nota-se na forma pausada e ponderada com que fala e com que expõe as suas ideias. Mas sempre com inteligência e um espírito jovem que causa empatia. Adora frequentar exposições de fotografia. “Gosto muito de fotografia de coisas. Não gosto muito de fotografia de pessoas. Gosto de espaços”, partilha. Embora tenha uma câmara analógica, raramente fotografa fora das suas viagens. A fotografia de espaços industriais é o seu tema favorito. Há qualquer coisa nestes lugares que mexe consigo. E depois há a ligação à arquitectura que, em conjunto com a biologia, dividia a sua razão na altura de escolher um futuro.

Peço-lhe que se imagine na pele de um dos seus professores. Que gostava de ensinar à humanidade? “Desenho técnico. Era das minhas aulas favoritas, embora depois nunca tenha posto em prática esses ensinamentos”. Adorava plantas e mapas e era também aí que residia o seu gosto pela arquitectura.  Por isso, se pudesse ensinar algo a alguém seria isso mesmo “desenho técnico”.

De volta às artes, entre música, literatura ou cinema, escolhia o último das três. Assim sendo, que filme lhe vem imediatamente à memória? “Memento”, diz instantaneamente. E porque é que este título de Christopher Nolan, estreado no ano 2000, mexe tanto consigo? “É o único filme que anda para trás o tempo todo. Causou-me grande impacto a primeira que o vi e ainda o faz. Tenho a tendência para me esquecer das coisas e esqueço frequentemente o final dos filmes. Por isso, sempre que o revejo, sinto a mesma sensação e o mesmo impacto que da primeira vez. É óptimo!”.

Para finalizar, peço que partilhe connosco a característica mais bonita de ‘nuestros hermanos’. “São pessoas sem vergonha”, diz depois de pensar um pouco. “Sem vergonha no bom sentido”, apresso-me a interromper. “No bom e no mau! Em tudo!”, riposta. “Mas acho piada a isso. Gosto disso!”. E nós também , ‘por supuesto’!