Manuel

Adora passear. A maior prova disso é o caminho que faz, todos os dias, para vir almoçar a Lisboa com a sua neta.

Hoje em dia, sente que já pouco o faz sorrir. As pessoas vivem com dificuldade e o futuro já não se avizinha tão risonho. Lembra-se dos tempos em que deixou as terras da província, em Lamego, para vir para Lisboa. Recorda com carinho da zona de São Sebastião da Pedreira e da casa onde morou perto da igreja. Nessa altura, tudo era diferente. As pessoas diziam bom dia a toda a gente e não olhavam com desconfiança para quem falava com eles. Hoje, infelizmente, tudo isso se perdeu.

Embora não sorria muitas vezes, ainda há coisas que o deixam contente. Uma delas é o Benfica. Fica feliz se a equipa ganhar o campeonato, embora já não seja ‘doente’ com em outros tempos. Antigamente, domingo que não fosse à bola, não era domingo.

Vive sozinho. A velocidade com que desenvolve a conversa é semelhante à rapidez de quem, após um dia de calor, bebe um copo de água fresca. À pergunta “se tivesse de ensinar algo a alguém, o que seria” responde com os olhos postos no passado: “A minha mãe dizia-nos sempre quando saiamos de casa: tenham cuidado, vejam lá com quem andam e em que problemas se metem. Se fizerem alguma asneira, não vou a correr atrás para vos socorrer.” É claro que sempre lhes dava a mão se alguém lhes fizesse mal, mas era rigorosa se os filhos se metessem em sarilhos. Moral da história: sejam felizes e pensem duas vezes antes de fazerem algo que possa envergonhar a vossa mãe.