Larissa

“Eu acho que a gente tem de se amar mais. Independente da raça, classe social, idade ou religião. Se nos amarmos mais uns aos outros, tudo se resolve, pois quando eu amo, não deixo a outra pessoa passar fome ou estar infeliz. A solução é o amor.”

Está em Lisboa há uma dezena de meses, mas a sua relação com a capital portuguesa não foi amor à primeira vista. “Lisboa foi-me conquistando aos pouquinhos, com detalhes que, para mim, fazem toda a diferença”, partilha. Sente-se segura, como nunca se sentiu nos outros lugares em que viveu. Depois, há uma proximidade com o Brasil que a faz sentir-se em casa. Finalmente, há os amigos que aqui fez e que a receberam de braços bem abertos. “Acho que a energia daqui me cativou e, agora, estou completamente apaixonada”, conta com o seu sotaque doce de quem vem do outro lado do atlântico.

Mais do que os locais, são as pessoas que fazem esta cidade. “Lisboa tem a cara de muitas pessoas”, diz de forma inteligente. Não são só os alfacinhas de gema, de quem ouviu falar que eram algo preconceituosos, mas que sempre a abraçaram e a fizeram sentir-se em casa; são também os que chegam de todas as partes do país e do mundo e que se juntam aqui para fazer desta cidade um local verdadeiramente multicultural. E é este o universo onde quer plantar a sua casa e o seu futuro.

Falando um pouco dos locais, adora o verde e o facto de estarmos a conversar sobre a relva de um dos parques mais bonitos de Lisboa prova isso mesmo. Sentia falta desta proximidade quando vivia em Fortaleza: “um espaço onde pudesse estar calmamente a conversar, em contacto com a natureza, a ouvir o barulho da cidade, a música da cidade”, confessa. Também adora a zona de Belém e o Terreiro do Paço que considera ter um dos pores-do-sol mais bonitos que já viu na vida. E já viu muitos, pois, como diz, é um pouco “mochileira”, gostando de partir à descoberta das gentes e das terras por essa estrada fora.

Deixamos agora Lisboa para dar um pulinho ao seu país. Peço-lhe que me conte a característica mais bonita dos brasileiros. “Eu acho que é a alegria de viver. No sentido de ter uma resiliência muito grande que permite, mesmo em situações complicadas, dar a volta por cima, com força e alegria”, partilha de forma serena e com um brilho especial no olhar. É certamente algo que se orgulha de ter na sua génese. E um lado menos bom dos seus irmãos? “O jeitinho brasileiro”, diz entre risos. E o que é este “jeitinho brasileiro”, pergunto. “É o que chamam de gambiarra. Do estilo, dar um jeitinho nas coisas para se conseguir o que se quer”, explica. Em resumo, é algo que contorna o lado certo – e por vezes legal – de fazer as coisas, para permitir proveito próprio. Algo que é completamente contra, pois gosta de seguir o caminho correcto para chegar aquilo que precisa. Acabamos todos com uma grande gargalhada quando lhe conto que os portugueses, às vezes, também gostam de dar um jeitinho… Agora falta saber quem herdou de quem!

A nossa conversa desenrola-se ao sabor do vento que sopra brando sobre o modo bonito de Larissa. A empatia que coloca em cada palavra é realmente contagiante.

O sorriso está pintado de forma constante no seu rosto, pois, como diz, “o sorriso vem de dentro”. Há um universo de coisas que a faz estar em paz consigo própria. As crianças, a inocência, a arte… tudo mundos que a fazem muito feliz. “A arte é uma coisa que me faz transbordar. Quando eu estou triste ou confusa, a minha válvula de escape é a arte”, confessa. Larissa toca, pinta e é professora de artes visuais. Para além de tudo isto, começou a trabalhar em fotografia e desde há três anos que se deixa encantar pela inocência das crianças e dos bebés, retratando-as e mostrando o que são através da fotografia. “É algo que me completa e que me faz realmente feliz. Esqueço tudo quando estou a fotografar”, partilha de forma apaixonada.

As suas referências, na área da fotografia, passam por nomes conhecidos, como os seus conterrâneos Sebastião Salgado, para falar de um mestre que todos conhecem, ou Danilo Siqueira (www.danilosiqueira.com), um nome ligado ao estilo fotográfico que persegue actualmente e que, mais que um olhar de mercado, tem uma veia realmente artística. Dos menos conhecidos, gostava de referir uma amiga de quem aprecia imenso o trabalho: Camilla Albano (Camilla Albano no Facebook). A descobrir o seu trabalho, muito interessante, com mulheres e natureza.

Quando está no meio das crianças, torna-se numa delas. Apenas a câmara fotográfica a faz distinguir no meio daquele jardim de brincadeiras. Isto permite-lhe desenvolver um trabalho mais emotivo, que de outra forma seria impossível. Mas fá-lo desta forma porque se sente bem e porque é feliz quando rodeada por estes seres pequeninos que são enormes no seu universo de encantar.

E quando era menina, lembra-se do que queria ser? “Primeiro, quis ser astronauta. Depois, emprestar a voz a personagens de animação. No final da infância, ilustradora de livros de BD”, recorda com carinho. Acabou por se formar em comunicação e tirar uma licenciatura em Artes Visuais. Foi professora de artes durante um período da sua vida e achou a experiência maravilhosa.

Acabamos a nossa conversa sentados na cadeira de um cinema imaginário, prontos para assistir a um filme muito especial, em que Larissa é a actriz principal. “O Retrato de Um Sorriso” é o título para a fita que conta a história da sua vida. O final, feliz, acaba “numa casa de campo, com cinco filhos e três cachorros”. Com a máquina fotográfica sempre no seu pescoço, enquanto dança com um entusiamo contagiante, ao som do forró.