Joana

“O mais importante de tudo, nesta vida, é conseguirmos abraçar os momentos mais simples. É sentir aquele vento de primavera, a adornar-nos o rosto, e sentir que isso é suficiente para nos sentirmos completos. Acho que a magia da vida é essa: saber aproveitar as pequenas coisas”.

E assim começa esta conversa com a Joana. Uma conversa que se desenrola ao ritmo do vento que hoje sopra ameno, como tanto gosta. Um diálogo em que as palavras não pedem licença e que se sucedem a um ritmo bem vivo. “Eu falo muito”, confessa entre risos. E ainda bem, respondemos nós.

O cinema é o seu maior amor, algo verdadeiramente especial e que a faz perder, por completo, a terna noção do tempo. “Conquistei esta paixão graças ao meu avô materno. Ele sabia o nome de todos os actores, de todos os filmes portugueses, de todos os realizadores”.

O avô Carlos sofria de alzheimer. Sempre o conheceu envolto pelo imprevisível manto da doença. “Uma coisa que aprendi ao estuda-la, para poder lidar com ela, foi que as memórias passadas são aquelas que se preservam até ao final da vida”, conta. A maior paixão do seu avô era o cinema e isso nunca se perdeu pelo caminho. E lembra com carinho os momentos em que se encontravam em torno de um filme, momentos de lucidez e de encontro, entre as reminiscências passadas de Carlos e as lembranças futuras de Joana.

Gosta de cinema independente, embora também tenha os seus clichés e os seus filmes blockbuster. Na sua vida, há também lugar para o balde das pipocas! Mas gosta essencialmente de filmes independentes, de produções portuguesas e de alguns realizadores franceses. Se tivesse que escolher um título para definir este romance, a escolha cairia, sem dúvida, sobre a película de 2004 do francês Michel Gondry: ‘Eternal Sunshine Of The Spotless Mind‘ – o Despertar da Mente, no seu título em português. “É perfeito, porque conjuga aquilo que é tão real, com aquilo que é completamente estapafúrdio! No meio daquela invenção e daquele lunatismo todo do realizador, está a realidade de aquilo que é uma relação”, relata de forma luminosa. É a síntese perfeita entre a criatividade e a banalidade do nosso dia-a-dia.

E se a sua vida fosse, ela própria, também um filme, como o baptizaria? “As Cavalitas do Vento”, responde lembrado o nome que a acompanha há quatro anos, que primeiro foi nome de blog e depois da sua famosa conta de instagram (descubra-a aqui). É enamorada por tudo o que tenha a ver com o vento e o seu carácter de eterna liberdade. São as andorinhas que traz pintadas no braço, os papagaios de papel, os balões de ar quente: tudo aquilo que lhe permita voar e ser livre. E como seria o final? “Neste momento da minha vida, não gosto de pensar em finais… Gosto de viver o presente; não gosto de pensar no futuro”, reflecte. Por essa razão, não haverá final, até que deixe de respirar.

Quando era pequenina, gostava muito de entrevistar pessoas. A sua sala transformava-se, à hora certa, no telejornal. De câmara ligada, percorria o mundo através das notícias que nasciam da sua cabeça, dos jornais que coleccionava ou dos livros da escola que relia. Não é de estranhar, portanto, que a sua vida esteja agora ligada à comunicação social. Mas também podia ter sido arqueóloga, algo que surgiu por influência da sua mãe. Do Egipto às Descobertas, tudo a mãe lhe tentava incutir no seu imaginário, no doce intuito de criar a verdadeira heroína portuguesa. Alguém com a inteligência e o espírito de aventura do Indiana Jones e a beleza ágil da Laura Croft.

Mas foram as ciências da comunicação que acabaram por vencer. Agora, passa os dias embrenhada nas páginas da revista que faz chegar às bancas e às mãos dos apaixonados pela fotografia. Adora aquilo que faz. “Gosto muito de pessoas. Aquilo que me leva a querer escrever sobre elas é o facto de gostar de falar com elas. Adoro conversar frente-a-frente e de contar as suas histórias. Gosto de procurar inspiração nas pessoas e de, ao mesmo tempo, as inspirar de alguma forma”. E é este o sumo do trabalho de alguém que tem na escrita, na divulgação do que o ser humano é capaz de criar, o seu dia-a-dia.

Chegamos finalmente a Lisboa e à cidade que a viu nascer. O que é que Lisboa tem de especial? “Ah… isso dava para ficarmos aqui horas a conversar. Adoro Lisboa!”, diz com um sorriso rasgado. Já visitou muitas cidades, locais que lhe ficaram na memória, como Barcelona, Paris ou Viena, mas para si, não há cidade como Lisboa. Adora a luz e o calor, os vários miradouros – com uma predilecção muito singular pelo da Senhora do Monte, na Graça –, o estar na Ribeira das Naus a olhar para o Tejo. O seu sonho é vir morar para Lisboa e sentir o encanto da vida de bairro: “sair de casa e falar com os vizinhos, ir ao talho da esquina ou ao mercado onde todos vão”. E adora o fado que aprendeu a escutar com a avó Otília, a luz dos seus olhos. Como se percebe, o seu namoro por Lisboa não tem falta de lenha para arder.

Ainda em Lisboa, é Campo de Ourique o lugar que a faz sentir-se em casa. “Sempre que vou a Campo de Ourique, fico com aquela sensação de ‘eu já vivi aqui noutra vida ou um dia vou viver aqui'”. Não pensa muito nisso, mas sente uma ligação muito singular a este bairro. Adora estar sentada no Jardim da Parada a observar o pulsar da vida de bairro, por entre o chilrear dos pássaros que também reclamam para si aquele espaço.

É também uma descobridora dos sítios mais desconhecidos da capital, daqueles que merecem ser divulgados. Adora pesquisar na internet, nas redes sociais e de os encontrar no meio das conversas com os amigos. É aí que gosta de levar os que vêm de fora e que se querem libertar das sugestões que enchem as páginas dos guias turísticos. O último local que desvendou chama-se ‘Café com Calma‘. “É muito bonito, um espaço vintage mesmo ali no meio de um bairro lisboeta. Gostei mesmo muito e recomendo vivamente.” Fica no Beato.

Daqui a 50 anos, quando for velhinha, vai querer estar rodeada de netos. A família é muito importante para si e é também aquilo que sente ir ser realmente importante quando tiver 80 anos. Mas vai também querer ser feliz à volta de algumas coisas, tal como o seu gira-discos que ainda ontem usou para fazer soar a voz de veludo de Nat King Cole. “E vou adorar sentar-me no banco do jardim a tricotar!”, conclui entre risos. Mas o mais importante de tudo é nunca sentir-se sozinha.

Para terminar, voltamos aos avós. Da avó Otília, para além do gosto pelo fado, espera ter herdado o condão de conseguir dar de si aos outros. “Eu sei que as pessoas nem sempre vêem isto com bons olhos, o facto de colocarmos sempre os outros em primeiro plano e depois nós em segundo, mas a verdade é que gosto muito de fazer os outros felizes”, confessa. Gosta de ter a hipótese de dar a conhecer os projectos dos amigos e de os incentivar, de alguma forma, a continuar e a vencer. E o que é que não herdou mas gostava de herdar? “A paciência que ela tem”, diz entre uma gargalhada. “Uma paciência de santo!”