Ernesto

“Lisboa está viúva”, diz com a serenidade e a certeza de quem está quase a completar 80 anos. “Você passeia pela Baixa e está tudo desabitado!”

Ernesto vive em Lisboa há mais de 50 anos. De início, está um pouco reticente em falar comigo, mas à medida que a conversa avança partilha o que lhe vai na alma com a vontade de quem tem muito para contar. “Antigamente, na Rua de São Pedro, nem se podia passar com tanta pessoa a vender peixe”, diz, referindo-se ao Bairro de Alfama. Agora, tudo está desabitado e as zonas históricas da cidade estão quase todas ocupadas por estrangeiros que escolheram Lisboa para o seu novo lar. Alfacinhas de gema, é difícil encontrá-los, confessa.

Ainda se lembra do tempo em que havia soldados e animais no castelo de São Jorge. Sobretudo aves. “Agora é só pedra”, exclama. O Santana Lopes começou a cobrar entradas, mas o castelo em vez de melhorar, piorou. “Mais uma forma de ganhar dinheiro fácil com o turismo”, desabafa.

Se pudesse voltar atrás no tempo e ter de novo 20 anos, fazia tudo igual. Fazia a 4ª classe em Lisboa, na escola em Santa Clara, a tropa no Entroncamento, na manutenção militar. Ainda se lembra das vezes que dormiu nas pedras frias da estação para apanhar o comboio para Abrantes, onde o esperava o transporte que o levava para a ceifa, nas planícies douradas do Alto Alentejo. Mas tudo isto, voltava a fazer de novo. “Sou feliz, que remédio!”, partilha. Vive aquilo que a vida lhe dá e isso basta.

Da sua terra, perto da Pampilhosa da Serra, lembra-se de ser jovem e de ser o ‘manda-chuva’ da aldeia. Era quem, nas festas, mandava o baile, marcando o ritmo da dança e entoando as modinhas e os fados. Como adorava cantar… Antigamente, andava sempre a trautear e nunca se esquecia de nada. “Agora, esqueço-me de tudo”, diz com um sorriso.

É um homem de fé. Se lhe dessem a oportunidade de ensinar algo aos jovens de hoje, gostava de lhes apontar o bem. Apenas isso: o bem.