Edite

Costuma sentir que, para ficar mais bonita, é mais fácil entrar numa livraria e comprar um livro do que ir ao cabeleireiro arranjar o cabelo.

Nota prévia: Com esta entrada, começamos uma nova etapa do “Faces de Lisboa”. Depois de termos atingido a centésima participação, pedimos à Susana – justamente a face no. 100 – que iniciasse uma corrente. Uma corrente a que decidiu baptizar de “Velhos Amigos” e que, em poucas palavras, vai fazer com que seja da responsabilidade de cada nova Face de Lisboa escolher a próxima. Para além disso, vai ter de explicar o porquê dessa escolha e deixar uma pergunta no ar para essa pessoa. E assim começa esta nova corrente que nos vai levar até à face no. 200.

Está um fim de dia ventoso, no topo de um dos parques mais bonitos de Lisboa. O sol vai desaparecendo a oeste, do lado do mar, mas os franzinos raios de sol, espreitando por entre um manto denso de nuvens, ainda conseguem pintar de dourado toda a paisagem. São os primeiros dias do fim do Verão a convidar a não fazer nada.

E é por este “não fazer nada” que começamos esta conversa. “Nada, é uma coisa boa de se fazer”, partilha a minha interlocutora de forma inteligente. “Ficar quieto e não fazer nada é uma arte”. Simplesmente porque, às vezes, ficar quieto e não fazer nada é mesmo a coisa mais difícil a que nos propomos fazer.

Mas quando não está a desfrutar do prazer de nada fazer, o que lhe tira realmente a noção do tempo é fazer yoga, ler e cozinhar.

Vamos então por partes. Cozinhar é a desculpa perfeita para conviver, para gozar o momento de partilhar a vida com quem se gosta de estar. Cozinhar é também “uma alquimia; nós pegamos numa coisa e transformamo-la noutra”, confessa. Por tudo isto, não é preciso pensar em pratos elaborados. Muitas vezes, basta um prato de queijos, um pão fatiado mais ou menos escuro e um bom vinho para fazer a festa e para colocar as pessoas no ponto certo para uma boa conversa. “A comida é o pretexto para ter as pessoas comigo”, remata com um sorriso.

O yoga, por outro lado, é algo mais solitário que costuma fazer em casa. Embora já tenha, algumas vezes, tentado trazer pessoas para este círculo, é uma coisa que gosta de fazer de forma não estruturada e, por isso, de forma espontânea. Isso não impede que, nos seus horizontes, não vislumbre o sonho de um dia levar isto mais a sério e, porque não, tornar-se até numa instrutora de yoga. Mas, por enquanto, sente que ainda tem muito para aprender. Para subir o degrau e passar a ensinar vai ter ainda de deixar passar algum tempo e deixar maturar ainda mais o seu conhecimento por esta apaixonante actividade.

Finalmente chegamos às letras, algo que faz parte de si desde muito jovem, uma vez que foi a área de vocação que escolheu ainda na altura do liceu. Sempre se habituou a ler os clássicos – por gosto e porque tinha de ser – e a sorver literatura. Mas, cada vez mais, sentiu e sente a necessidade e a vontade de ler outras coisas. Filosofia, sociologia, política, psicologia, religião… tudo aquilo que lhe permite conhecer novos mundos, novas pessoas, novos temas. “Eu gosto de aprender e ler é uma forma de aprender”, partilha. Considera que uma das melhores formas de conhecer pessoas interessantes é ler aquilo que escrevem, aquilo que pensam. E como é que escolhe o próximo livro a ler? “Eu acho que são os livros que me escolhem a mim”, diz com um sorriso. Lá por casa, tem “livros lidos, outros por ler, outros emprestados, alguns perdidos e outros tantos oferecidos. Os livros circulam, porque não devem ficar quietos nem fechados muito tempo”. Com toda esta escolha, nem sempre lhe apetece ler este ou aquele livro. Mas, de quando em vez, há um livro que se mostra e que lhe diz “pick me, pick me”. E é esse livro que lhe vai importar ler, pois é também essa obra que lhe vai dizer aquilo que de novo vai gostar de aprender. “Cai como um copo de água quando estás com sede. E eu vou lendo assim”, remata de forma radiosa.

Com uma ligação tão forte ao mundo das letras não podia deixar de lhe pedir uma recomendação para o próximo livro a ler. Indica, sem pensar muito, um autor que considera um pouco “apanhadinho”, um filósofo americano realmente alternativo de nome Ken Wilber. A obra chama-se “Uma Breve História de Tudo” e o autor propõe-se a explicar, de alguma forma, o que é que é tudo! A não perder, para quem quer ficar a saber quase tudo sobre quase tudo.

Deixamos o fantástico mundo dos livros para entrar no não menos contagiante mundo do sorriso. “O que é que te faz sorrir”, lanço eu em modo de pergunta. “Às vezes nada”, responde Edite com uma serenidade que também sorri. Às vezes um pensamento, outras vezes uma coisa bonita na rua, como duas pessoas de mão dada ou um beijo roubado em frente a um café. “Um estalo!”, diz entre risos. Gosta de cumprimentar as borboletas que passam por si, de lhes dizer “Bom dia” ou “Boa tarde” e de lhes agradecer o facto de a terem escolhido para lhe atravessar o caminho. Gosta de sorrir para as árvores que considera o paradigma da sabedoria. “Acho que sorrir é um sinal de presença e de presente. De consciência de como é bom estar aqui”, conclui.

E este amor às árvores e às borboletas, quererá significar que prefere a natureza à cidade? “Lá está, eu adoro as árvores e a natureza, mas seria incapaz de viver sem pessoas”, partilha de forma convicta. Considera que as pessoas estão acima de tudo e o importante é tentar arranjar um equilíbrio entre natureza e urbanismo. É possível ter o campo na cidade e a cidade no campo e considera que são as pessoas as principais responsáveis para que isto possa ser uma realidade. Como diz um dos seus autores favoritos – o francês Edgar Morin –, nós somos 100% natureza, para além de sermos 100% cultura. Esta realidade explica porque é que nunca se imaginaria a viver no meio de uma floresta sem casas à volta ou a perceber que cortaram a última árvore da sua rua em Arroios. Não é decididamente daquelas pessoas que queira fugir da cidade, embora perceba que os centros urbanos possam, por vezes, ser sufocantes. Mas essa capacidade de saturação também pode e dever ser usada em nosso favor, por forma a aproveitarmos todo este rebuliço para potenciar a imaginação e a criatividade. E, principalmente, fustigar-nos com questões, algo que considera fundamental para nutrir a sua maneira de ser. “Tenho sempre questões e até me aborrece quando não tenho… parece que se passa alguma coisa de errado comigo”, confessa.

E Lisboa, como a vê? “Lisboa é poesia!”, realça. É uma cidade com uma beleza única e uma luz misteriosa. Tem recantos fantásticos, coisas interessantes como ter micro aldeias dentro de uma cidade. “Eu vou a Alfama e parece que estou numa aldeia no Alentejo”, partilha. Lisboa é inesgotável, tem sempre uma coisa nova para mostrar. Tem tantos tempos dentro do tempo que é hoje, tantas paisagens dentro das colinas que constituem o seu coração. “É um hino à diversidade e à essência que torna qualquer lugar único e intemporal”, conclui.

Deixamos Lisboa por uns momentos e ofereço-lhe a pergunta que a Susana cozinhou para si. Nesta corrente, a pessoa anterior deixa sempre uma pergunta no ar e desta vez reza assim:

“Imagina que embarcas numa viagem de onde nunca ninguém regressou e para a qual também não sabes se vais regressar. Que mensagem deixarias aos teus filhos?”

“Essa viagem é parecida com a ideia de que eu vou partir e não volto nunca mais. Portanto, muito semelhante à ideia de que eu vou morrer”, filosofa. O que Edite diria aos seus filhos é aquilo que lhes diz todos os dias, todas as horas em que se lembra, de forma natural, que é mortal e que um dia não vai estar cá. Dizer-lhes que os ama e lembrar-lhes os valores e os princípios fundamentais para que possam crescer bem e tornarem-se num bom homem e numa boa mulher. “Acho que o mundo precisa de boas pessoas e os valores fundamentais são sempre a liberdade e a verdade”, partilha. E lembrar-lhes que, acima de tudo, aquilo que dá sentido à vida é o amor.

Os filhos são a desculpa perfeita para falarmos um pouco da sua infância. Que memórias guarda do tempo em que era verdadeiramente pequenina? “Eu nasci num monte alentejano e ali cresci a brincar descalça, no meio da bicharada”. Lembra-se de forma clara de, em criança, estar a brincar no meio do rebanho que o avô tinha em pleno montado alentejano e, mesmo sem saber onde o futuro a ia levar, sentir-se abençoada por estar ali. Lembra-se de ser criança e em total consciência gozar do prazer de subir a uma árvore, andar de pés nus, ter patinhos e cabritos para brincar e pensar que era mesmo sortuda!

E em super-poderes, pensava nesta altura? Talvez isso fosse mais coisa dos miúdos, embevecidos pelo homem das teias e do kryptonite, mas se hoje pudesse ser uma super qualquer-coisa, gostava de ser a super-super-cupido. Não aquele da paixão, mas sim o da bondade e da compaixão. “Faria com que todo o planeta se apaixonasse verdadeiramente uns pelos outros para que fosse intolerável viver com a ideia de que magoamos alguém… de propósito”, partilha.

Terminamos com uma mensagem para o mundo, em jeito de miss universo, embora considere que este tipo de mensagem já foi dita vezes sem conta por toda a gente. Ainda assim, o que é a Edite, do alto do palanque da sua majestosa beleza interior, tem para dizer ao mundo?

“Isto é só uma passagem e, ainda por cima, passa a correr. Cada minuto pode não ser o último, mas é certamente único. Que seja muito bom, que faça muito bem e que me possa criar algo que me possa fazer feliz. Mas que esse minuto possa também contribuir para a felicidade dos outros, porque só assim vai fazer sentido. Por tudo isto, conjurem estes minutos através do seu poder transformador, agregador, consciente, pleno, grato e sonhador. Sonhem e não se conformem com um minuto mal passado. O próximo tem sempre que ser melhor!”

A escolha de Susana: “A Edite porque abriu espaço a uma nova forma de olhar para mim e de ver o mundo; porque tem as marcas de uma mulher resiliente no corpo, mas a doçura no coração e a inteligência na acção; pelo número incontável de horas que partilhámos de boas conversas, discussões, gargalhadas e lágrimas; porque há pessoas que nos acompanham sempre, ainda que não estejam sempre presentes”.