Constança

Do pai, herdou a entrega aos outros; da mãe, o espírito de luta e perseverança. Aos dois, foi buscar a matriz daquilo que é, o seu feitio. E algo que não herdou, mas que gostaria de ter recebido? “O jeito para o desenho!”, diz de forma instantânea.

Fala da família com um brilho especial. “São as pessoas que tu conheces desde sempre, que definiram o teu carácter e que, de alguma forma, te encaminharam na vida, nas tuas escolhas e na forma como és”. Costuma dizer-se que os amigos são a família que se escolhe e a família os amigos que nos são designados e Constança subscreve por inteiro estas palavras. É também a família que está no topo da pirâmide da sua felicidade. A seguir “os amigos… sentir-se realizada a nível profissional”. Gosta de ser financeiramente independente, mas perceber que os pais estão lá para o que ‘der e vier’. Gosta também de saber que tem amigos que vêm a correr se precisar. “Basta estalar os dedos”, partilha. E também de ter um namorado “cinco estrelas” que a apoia e a suporta em inúmeras decisões.

Quando era pequenina, queria ser caixa de supermercado, pois pensava que no final do dia as pessoas levavam o dinheiro todo para casa. Também quis ser cientista, pertencer ao departamento de marketing ou seguir engenharia civil, muito por influência do avô que era engenheiro, da sua mãe que gostava de ter seguido a carreira e dos tios que tinham um projecto na área. “Sempre fui assim, muito indecisa. Acabei por ir parar a gestão, um pouco porque gostava de matemática e porque me tinham dito que era uma área abrangente que dava para tudo… e aqui estou eu”, confessa.

Sente que tem um carácter analítico que a persegue, mas também revela que, se fosse hoje, talvez tivesse seguido uma área mais ligada às artes. “Ah, houve uma altura em que também queria ter sido estilista, fazia muitos rabiscos de roupas e de brincos. A minha mãe ainda fala sobre isso!”, interrompe com prontidão. É a sua paixão pelo desenho a remexer o lago das suas memórias…

Aos 17 anos, quando nos interpelam para escolher o nosso futuro, nem sempre vislumbramos o alcance que as nossas escolhas vão ter. Entre o racional de uma escolha que nos garanta um futuro estável e o emocional de ter a liberdade para escolher algo que verdadeiramente nos apaixone, há uma montanha de dúvidas que não estamos preparados para escalar. Falta-nos a maturidade para o fazer. Mas Constança não está nada arrependida da escolha que fez e é com garra que toma o pulso da profissão de gestão que é a sua de momento.

Tocou guitarra durante quatro anos numa orquestra. Neste momento, é, no entanto, a fotografia que toma o lugar cimeiro da sua veia mais artística. “Não fotografo tanto quanto queria, pois há sempre algo mais importante para fazer”, confessa. Como é possível, perguntamos nós… Gosta muito de fotografia de pessoas, em especial de retratos com contexto, onde as emoções estão sempre no centro do fotograma. Adora fotografia de viagem, especialmente de países mais exóticos como a Índia ou África. Há sempre aquele imaginário da savana africana e dos seus animais a inundar-lhe a alma. Recentemente, começou também a interessar-se também pelo desenho. Os seus pais têm uma grande aptidão para esta arte visual e acha um desperdício não conseguir desenhar com mestria. “Tenho-me incentivado, comprei um caderninho e uns lápis e tenho tentado fazer um por dia”, relata. Senta-se ao pé do seu pai que num ápice lhe faz dois ou três desenhos que a deixa de queixo caído. Vai tentar aprender e ganhar motivação com esse exemplo.

De Lisboa que também é sua, fala com paixão. “Lisboa tem Alfama e a Mouraria! Tem o Martim Moniz e os seus centros comerciais! Tem os pastéis de Belém e os croissants do Careca! Tem a Bica e a bica (café)! Tem o fado!” Sente que podia continuar a desenrolar o tapete vermelho das características de Lisboa o dia todo! A capital portuguesa é um local realmente único. A proximidade com o mar é algo que lhe confere um temperamento realmente singular. “Cidades como Paris, Bruxelas, Berlim e Madrid não têm essa sorte….”, lembra com pertinência. Depois há a simpatia dos Lisboetas. “Sinto-me sempre tentada a intrometer-me na vida dos turistas que ‘estudam’ mapas no meio da rua”, confessa.

O miradouro da Senhora do Monte é um dos seus lugares de eleição e não é raro encontrarem-na por lá na companhia da sua câmara fotográfica. O Castelo de São Jorge é outro dos símbolos da cidade que a entusiasma, lá bem no alto com o seu porte imponente. Quando esteve na Bélgica a fazer Erasmus, lembra-se bem do que lhe fez falta de Lisboa: o mar – sendo uma menina de Cascais até há bem pouco tempo, tem uma forte ligação com a praia -, o bom café (e barato) e o cor-de-rosa do por do sol.

Falando agora um pouco de política, se estivesse à frente dos destinos do mundo iria seguir certamente as pisadas de Malala Yousafzai, a paquistanesa que se tornou na pessoa mais nova a ser laureada com o prémio Nobel. O tema dos direitos das mulheres e a forma como ainda hoje são tratadas nalgumas partes do mundo é algo que a toca profundamente. “Há uma série de histórias de raparigas que passam por muito, histórias de extrema violência… mulheres que antes disso nem sequer tiveram a oportunidade de estudar, de ter uma vida mais valorizada”, reflecte. Ainda falta muita educação, muita liberdade de escolha, liberdade de pensamento; falta que os homens (e os Homens) olhem para as mulheres com a integridade que elas merecem. “Manipulá-las, não é o caminho”, conclui.

Terminamos à volta dos livros. Constança adora ler e lê um pouco de tudo: ficção, romances históricos, livros sobre gestão, livros sobre África – os pais vieram de Angola e o tema interessa-a bastante. Se tivesse que escolher um para todos lermos nas férias sugeria um título que está no topo das suas escolhas: “Os Capitães da Areia” de Jorge Amado. É uma história muito bonita que conta a história de uns meninos de rua brasileiros que, mesmo vivendo no meio dos assaltos e da violência, nos conseguem tocar com as aspirações e pensamentos comuns a todas as crianças do mundo.