Agostinho

Viajante é a palavra que melhor define Agostinho. E define-o a vários níveis… Lao Tzu dizia que “um bom viajante não tem planos fixos, nem tão pouco a intenção de chegar”. E isto resume de forma perfeita a forma com que o meu interlocutor gosta de abordar as suas partidas.

Andou pelos quatro cantos do mundo, sempre na companhia de um grupo reduzido de amigos. Saía com destino, mas era o dia-a-dia que fazia acontecer a viagem. Os lugares onde dormia, os sítios que descobria e as pessoas que abraçava, era tudo fruto do caminho. “É assim que se descobrem as coisas”, confessa.

Das memórias que construiu, com as vestes de viajante, lembra com saudade lugares como a Mongólia, o Perú, a Bolívia ou o Chile, onde percorreu os 4600km de norte a sul, por terra. Lembra também as pessoas, como as do Irão que, na sua abertura, o questionavam sobre o Ocidente e como o resto do mundo olhava para eles. Já na vizinha Síria, as pessoas eram muito diferentes e a abertura “Marcelista” dos iranianos era aqui substituída por uma atitude mais cerrada e mais desconfiada.

No topo das suas experiências está uma jornada de cinco semanas ao Mali, Níger e Burquina Faso. Lembra-se dos oito dias passados em Timbuktu, à espera de um barco que teimava em não aparecer, e dos Dogon, “um povo que vive no centro do Mali e que é dos mais fascinantes em termos simbólicos”. Foi também tempo de recordar as suas aulas de antropologia tidas umas dezenas de anos antes. Nessa altura, tinha ficado fascinado pela cultura e simbolismo deste povo. Mal sabia que um dia haveria de pisar aquelas terras e de privar com aquele povo. “Andamos a pé pelas aldeias, com um guia que falava a língua deles e dormíamos em casa dos chefes das aldeias”.

Se a sua vida fosse um filme, o título seria fácil de inventar: “Deriva”. É a sua alma de viajante a escrever os caminhos e as encruzilhadas por onde passou, as “andanças de quem procura não sabe o quê”. E como seria o final? “Um grande plano de um horizonte desconhecido que depois se desvanecia à medida que o realizador fazia zoom“, visualiza. Tudo isto ao som de uma música clássica que ainda não escolheu.

Para além das viagens, gosta de ocupar o seu tempo a ler. Foi por isso que começou a trocar Lisboa pela sua aldeia natal na Beira Baixa. Mas esta procura pelo tempo perdido revelou-se infrutuosa, pois “as pessoas nem imaginam o que há para fazer na aldeia”. Desta forma, a sua ideia de passar grande parte do tempo, no campo, a ler, foi abanada pela realidade mais rural e mais trabalhosa das actividades agrícolas. Apesar de tudo, encontro-o longe de Mação a ler Aquilino Ribeiro, “Andam Faunos Pelos Bosques”. Fala com paixão da sua obra, do seu imaginário e da maneira com que o autor trata a língua de Camões. “Aqui é que se vê o que é saber português”, partilha. Saber e descobrir.

A nossa conversa continua a bom ritmo e Agostinho fala de forma fácil e inteligente. “E Lisboa?”, pergunto-lhe. “Hoje em dia, tenho a confessar que já não conheço muita coisa. Lisboa abriu tantos lugares, sítios que ouvi falar mas que ainda não visitei”, diz com um sorriso. Mas continua a apaixonar-se pelos bairros típicos, pelas colinas e os miradouros. E pela comida nas tascas e o fado vadio. “Eu corri muito e acho que Lisboa continua a ser das cidades mais bonitas”, remata.

Pergunto-lhe se acha que é feliz. “Às vezes…”, responde enquanto pensa. “Gosto de estar com pessoas… e por vezes, de apenas estar parado a contemplar, a descontrair. A felicidade é muito relativa”, filosofa. Gosta do mar e de fazer longas caminhadas. Conhece o Portugal profundo a pé, em especial o Alentejo, mas também se deixa perder pela montanha, na ânsia de descobrir sempre o que está para além daquele pedra.

Uma mensagem para o mundo? “Abaixo a ganância e o vampirismo!” E “não é preciso dizer mais nada”.